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A partir de 8 de janeiro, as pensões só aumentam para quem entregar um certificado em falta, deixando muitos a dizer: “Sabem que não temos acesso à internet.”

Pessoa idosa segurando um certificado, com um computador portátil aberto e um smartphone em cima da mesa.

Na estação dos correios naquela manhã de terça-feira, a fila era mais longa do que o habitual. Casacos meio abotoados, gorros de lã puxados para baixo, pessoas a apertar a mesma carta branca e fina, dobrada e desdobrada até o papel amolecer. «Disseram-me online», suspirou um homem idoso com uma bengala, abanando a carta no ar. «Mas eu nem sequer tenho um telemóvel que dê para ir à internet.» A funcionária repetiu a mesma frase pela décima vez: «A partir de 8 de janeiro, a sua pensão vai aumentar, mas só se enviar este certificado em falta.» As palavras ecoavam pela sala, frias e técnicas. Os rostos, porém, contavam outra história. Confusão. Embaraço. Um pouco de raiva que ninguém ousava nomear. Uma mulher murmurou: «Eles sabem muito bem que nós não temos acesso à internet.»
Algo no silêncio que se seguiu pareceu o verdadeiro ponto de viragem.

Do aumento prometido da pensão a uma pista de obstáculos digital

O anúncio parecia simples: a partir de 8 de janeiro, as pensões aumentam. Uma frase rara que, de facto, traz algum alívio no fim do mês. Depois veio a condição, impressa em letras pequenas e linguagem seca. Para muitos reformados, o aumento só será aplicado se um «certificado em falta» for entregue dentro do prazo, na maioria dos casos através de um portal online. No papel, é rotina administrativa. Ao balcão do banco ou no banco de jardim em frente à câmara municipal, transforma-se em algo muito diferente. As pessoas perguntam umas às outras que certificado é, onde o encontrar, como o carregar. O aumento torna-se uma espécie de prémio, mas apenas para quem consegue ultrapassar o obstáculo digital.

Poucos dias após os avisos, associações locais começaram a receber chamadas. Num clube de seniores, o presidente acabou por fazer de apoio técnico improvisado. «Mandam-nos para o site, para a app, para o espaço online», explicou, mostrando uma pilha de cartas impressas. «Metade dos nossos sócios nem sequer tem endereço de e-mail.» Uma mulher, na casa dos setenta, chegou com uma pasta de plástico e o seu velho telemóvel de tampa. Achava que o «portal» referido na carta era um sítio onde tinha de ir presencialmente. Um voluntário teve de se sentar ao lado dela, abrir um portátil, criar uma conta, esperar por um código de validação que ela não sabia como ler. Uma hora de trabalho para desbloquear mais alguns euros por mês.

Por trás destas cenas está uma lógica crua. Os serviços públicos estão a empurrar tudo para o online porque é mais barato, mais rápido, menos papelada. Do outro lado do ecrã, porém, a realidade é confusa. Alguns reformados não têm internet em casa, apenas dados móveis instáveis - ou nada. Outros até têm acesso, mas têm medo de clicar no sítio errado. O certificado em falta - por vezes prova de vida, por vezes comprovativo de residência, por vezes um documento relacionado com impostos - torna-se um código secreto. Quem souber usar as chaves digitais certas verá o aumento em janeiro. Os restantes arriscam esperar meses, ou até perder dinheiro a que têm direito, simplesmente porque o sistema assume que toda a gente está ligada e à vontade com ecrãs.

Como garantir o aumento quando o sistema espera que esteja online

O primeiro passo é surpreendentemente simples: não ignorar a carta. Aquele envelope branco, com linguagem burocrática, é a passagem para o valor futuro da sua pensão. Leia uma vez com calma e depois leia de novo, com uma caneta na mão. Sublinhe o nome exato do certificado pedido e o prazo. Se algo não estiver claro, leve a carta consigo a um ponto de contacto físico: correios, câmara municipal, serviço de pensões, assistente social. Mostrar o papel é muitas vezes mais eficaz do que tentar explicar. E diga-o claramente: «Não tenho acesso à internet, preciso de outra solução.» Muitas vezes, essa única frase muda toda a conversa.

O segundo pilar é delegar sem vergonha. Um filho, um vizinho, um voluntário de confiança no centro de convívio pode ajudar a navegar no labirinto online. Muitos reformados hesitam, com medo de incomodar ou de parecer «fora do tempo». A verdade é que ninguém nasce a saber carregar um PDF num portal do Estado. Sejamos honestos: quase ninguém faz isto todos os dias. Se alguém o ajudar, observe o que faz e peça-lhe que escreva o seu utilizador e palavra-passe num papel que possa guardar num local seguro. E se não quiser partilhar acesso total, peça para fazer o processo num computador público do centro social, com um funcionário ao seu lado apenas nos passos mais difíceis.

Por vezes, o que falta é simplesmente saber o que dizer e o que levar. Foi assim que um ex-operário fabril reformado explicou:

«Fui ao serviço de pensões e disse: “Estão-me a pedir um certificado na internet, mas eu não tenho internet. Ou me imprimem isso ou fazemos juntos, senão perco o aumento.” E, de repente, a senhora encontrou uma solução.»

Para transformar esse tipo de momento numa lista prática, aqui fica uma pequena caixa de verificação a ter em mente:

  • Leve consigo a carta oficial, mesmo que não a compreenda totalmente.
  • Leve o seu documento de identificação, o número de pensionista e o último recibo/comprovativo da pensão.
  • Pergunte claramente se existe alternativa em papel ao certificado online.
  • Se não houver, peça apoio para o preencher no local ou através de um computador público.
  • Anote qualquer número de referência e o nome da pessoa que o ajudou.

Estes passos não apagam a injustiça, mas podem evitar que o aumento lhe escorra pelos dedos.

Quando um aumento da pensão revela quem fica para trás

Esta história vai muito além de um único certificado em falta. Expõe uma fratura mais profunda entre quem vive confortavelmente no mundo digital e quem é empurrado para a margem sempre que aparece uma nova ferramenta «apenas online». Uma pensão não é um favor; é o resultado de anos de trabalho, descontos, noites e fins de semana. Prender parte desse rendimento a um procedimento na internet que muitos não conseguem concluir sozinhos soa a uma forma silenciosa de exclusão. As pessoas raramente gritam sobre isto, mas as frases que se ouvem no autocarro ou nas filas do supermercado dizem muito: «Eles sabem que não temos internet», «Estão a contar que a gente desista», «Dizem que é simples, mas eu sinto-me estúpido sempre que tento.»

Há uma pergunta real escondida aqui: quem desenha estes sistemas, e para quem? De um lado, promessas de modernização, desmaterialização, poupança. Do outro, pessoas reais, muitas vezes mais velhas, por vezes isoladas, que gerem a vida sobretudo com papel, chamadas telefónicas e conversas presenciais. Entre os dois, quase não há ponte. Os familiares mais novos podem ajudar, claro, mas nem todos têm família por perto, e nem todos querem misturar questões de dinheiro com filhos ou netos. Alguns seniores acabam por escolher o silêncio em vez de admitir que se perdem à frente de um ecrã. Cada aumento de pensão não reclamado torna-se então um número num relatório, em vez de um mês de compras ou uma fatura de energia no inverno.

O paradoxo é evidente. Dizem-nos que os serviços estão «mais acessíveis do que nunca» através de sites e aplicações, enquanto as pessoas que mais precisam desse reforço de pensão são precisamente as menos preparadas para o perseguir online. Não se trata de nostalgia ou de recusa em evoluir. Trata-se de justiça básica. Um sistema que liga um aumento vital do rendimento à agilidade digital cria vencedores e perdedores por desenho. E os perdedores são muitas vezes aqueles que já pagaram o preço mais alto em vidas de trabalho longas e salários pequenos. Este aumento de 8 de janeiro vai avançar para muitos. Para outros, a data passará como qualquer outra, com o mesmo valor de pensão e a mesma pergunta no ar: quem é ouvido quando um serviço público se muda para trás de um ecrã?

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Verificar a carta Identificar o certificado exato pedido e o prazo Reduz o stress e evita perder o aumento da pensão
Pedir ajuda offline Ir a serviços presenciais ou centros sociais com os documentos Abre alternativas quando não usa internet
Usar a sua rede Família, vizinhos ou associações podem ajudar nos passos online Transforma um bloqueio técnico numa tarefa partilhada e gerível

FAQ:

  • Pergunta 1 Como sei se sou afetado por este aumento da pensão com um certificado em falta?
  • Pergunta 2 Que tipo de certificado costumam pedir e onde o posso obter?
  • Pergunta 3 Não tenho internet em casa. Ainda assim posso receber o aumento a partir de 8 de janeiro?
  • Pergunta 4 O que posso fazer se já deixei passar o prazo referido na carta?
  • Pergunta 5 É seguro pedir a um familiar ou vizinho que me ajude com a minha conta online da pensão?

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