Qu’Ajodar um colega sobrecarregado, uma amiga em plena separação ou um familiar doente deveria deixar-nos de coração leve, quase orgulhosos. Só que há essas noites em que chegamos a casa esgotados, com os nervos à flor da pele, apesar de termos “apenas” apoiado os outros. Nada de dramático para contar, mas um cansaço surdo, como se o nosso cérebro não tivesse tido um minuto para respirar. E damos por nós a pensar: “Porque é que me sinto mais stressado se fui simpático o dia inteiro?” Este desfasamento incomoda. Faz nascer uma pequena culpa que corrói em silêncio. E se tivermos entendido tudo ao contrário sobre ajudar os outros?
O escritório esvazia-se, os ecrãs apagam-se, mas o Sam fica, com o último separador ainda aberto. O dia inteiro, os colegas foram ter com ele a pedir “só uma ajudinha”. Um Excel para corrigir, um e-mail para rever, uma apresentação para salvar. De cada vez, o Sam disse que sim, com aquele reflexo quase automático de pessoas fiáveis. Ajudou toda a gente, mesmo. Menos a si próprio.
Chega a casa, atira a mochila, liga a Netflix sem estar a ver. O cérebro não pára, o coração bate um pouco depressa demais, e ele tem aquela sensação estranha de ter corrido uma maratona sentado. Quando o companheiro lhe pergunta como correu o dia, o Sam responde “esgotante”, sem saber bem porquê. Um pensamento atravessa-lhe a mente, rápido e desconfortável: E se ajudar o tempo todo me estiver a fazer mal?
Quando ajudar começa a queimar por dentro
Todos já passámos por aquele momento em que suspiramos por dentro quando alguém nos pede mais um favor. Não por não nos importarmos com a pessoa. Apenas porque já não temos combustível. O paradoxo é que a sociedade adora os “ajudantes”: pessoas que dizem que sim, que ouvem, que ficam até tarde para desenrascar. Admira-os, apoia-se neles. Esquece-se de ver que, lentamente, se vão consumindo.
Os psicólogos falam de carga emocional e de sobrecarga de papéis. À força de sermos “a pessoa com quem se pode contar”, o nosso cérebro entra em modo de vigilância permanente. O cortisol, a hormona do stress, aparece até nos momentos teoricamente calmos. Resultado: quanto mais ajudamos, mais nos expomos a essa tensão difusa. O gesto generoso continua a existir, mas o seu reverso torna-se mais pesado.
Imagine a Emma, 34 anos, enfermeira. Adora a profissão; escolheu este caminho por vocação, não por acaso. Com o passar dos anos, foi-lhe naturalmente atribuído o papel de “irmã mais velha” da equipa. Aquela que acolhe os novos, troca dias de folga, fica um pouco mais para acabar a papelada dos outros. A Emma diz muitas vezes: “É normal, eu gosto de ajudar.” E acredita mesmo nisso.
Um dia, o médico diz-lhe que está em pré-burnout. Perturbações do sono, enxaquecas, irritabilidade. Ela surpreende-se: “Mas eu só estou a fazer o meu trabalho.” Quando ele lhe pergunta quantas horas por semana dedica aos outros, fora do horário oficial, ela nem sabe responder. A sua bondade dissolveu-se no invisível. E os números falam: estudos mostram que as profissões de ajuda (saúde, área social, ensino) têm taxas mais elevadas de burnout, precisamente porque o acto de ajudar raramente tem um fim claro.
No plano psicológico, ajudar activa dois movimentos opostos. Por um lado, alimenta a nossa necessidade de sentido, de ligação, de valor pessoal. Por outro, drena a nossa energia atencional, emocional e, por vezes, até financeira. Quando a segunda parte ultrapassa a primeira, o cérebro deixa de perceber a ajuda como fonte de bem-estar e passa a vê-la como uma ameaça ao equilíbrio. E toca o alarme.
Os psicólogos falam também de “dissonância empática”: sentir intensamente o sofrimento do outro sem ter tempo nem recursos para o digerir. Absorvemos as preocupações, os medos, os dramas dos outros como uma esponja, mas nunca torcemos essa esponja. O stress sobe como uma pressão interna. Continuamos a ajudar, porque isso faz parte da nossa identidade. Mas, por dentro, algo range. E esse ranger é muitas vezes o início do esgotamento emocional.
Aprender a ajudar… sem nos perdermos
A primeira mudança acontece numa nuance muito simples: passar do “sim automático” para o “sim escolhido”. Antes de dizer sim a um pedido, tirar três segundos para fazer um scan mental: de 1 a 10, qual é o meu nível de energia? Se a resposta for abaixo de 4, adiar, reduzir ou dizer não. No papel parece parvo. Na vida real, é um acto discreto de sobrevivência.
Outra estratégia é limitar a forma da ajuda. Em vez de “sim, eu faço tudo por ti”, experimentar “sim, posso ajudar-te 15 minutos” ou “sim, posso explicar-te como se faz”. O cérebro gosta de contornos claros: tempo, nível de compromisso, fim definido. Ajudar torna-se então um gesto pontual, não um túnel sem saída. E a sensação de obrigação transforma-se num acto voluntário, o que reduz bastante o stress percepcionado.
A armadilha mais comum é acreditar que temos de merecer o nosso lugar sendo úteis o tempo todo. Especialmente quando crescemos com a ideia de que ser “simpático” significa pôr-se em segundo lugar. Muitas pessoas que ajudam demais nem vêem isso como uma competência; acham apenas que “são assim”. Quando o cansaço chega, interpretam-no como fraqueza pessoal, e não como um sinal do corpo.
Há ainda um erro muito humano: acumular pequenos pedidos sem nunca os somar. Pensamos “não é nada, vai demorar dois minutos”, só que esses dois minutos repetem-se dez vezes por dia. No fim, o dia rebenta. Sejamos honestos: ninguém aguenta isto todos os dias. Aceitar que a nossa energia não é infinita não é tornar-se egoísta. É apenas reconhecer que somos humanos, com limites como toda a gente.
Um psicólogo especializado em fadiga empática confidenciou-me um dia:
“Ajudar os outros não deveria exigir que se abandone a si próprio. Quando a sua ajuda lhe custa o sono, a saúde ou a alegria, já não é generosidade - é um sacrifício silencioso.”
Para sair desta lógica de sacrifício, algumas referências concretas podem servir de bússola:
- Dizer pelo menos um “não” verdadeiro por semana a um pedido que ultrapassa as suas forças.
- Bloquear momentos de ajuda “programados”, em vez de responder a tudo em tempo real.
- Falar com uma pessoa de confiança sobre o stress que sente quando ajuda demais.
- Substituir parte da ajuda prática por ajuda orientada para a autonomia (“eu ensino-te como se faz”).
- Observar, sem julgamento, o seu ressentimento quando ele aparece: muitas vezes é um indicador de que o limite já foi ultrapassado.
Dar-se o direito de ser generoso… e estar cansado
Há algo de libertador em admitir que podemos gostar de ajudar e, ao mesmo tempo, ficar exaustos. As duas coisas podem coexistir, sem anular a sua bondade nem a sua sinceridade. Esta ambivalência é profundamente humana. Mostra que não é uma máquina de soluções, mas uma pessoa com necessidades, humores, dias bons e maus.
Uma pista interessante é revisitar a imagem que temos do “bom” amigo, do “bom” colega, do “bom” pai/mãe. Será mesmo alguém que diz sim a tudo? Ou alguém que consegue manter-se presente ao longo do tempo porque sabe preservar-se? Muitos dramas relacionais nascem de um mal-entendido: damos demais, depressa demais; depois esgotamo-nos; e um dia explodimos ou desaparecemos. As ligações mais sólidas constroem-se muitas vezes com limites claros, mesmo que ao início incomodem um pouco.
Partilhar esta reflexão com quem nos rodeia pode mudar a dinâmica. Dizer a um amigo “Importas-me, mas hoje não tenho energia para falar duas horas ao telefone” envia uma mensagem dupla: tu contas, e eu também. Exige coragem. Mas, a longo prazo, abre a porta a relações mais justas, onde não é preciso sacrificar-se para ser amado.
E talvez seja aí, no fundo, que acontece a verdadeira mudança: na capacidade de continuar generoso, guardando uma pequena luz para si. Em perceber o momento em que a ajuda já não faz a vida circular e começa a sufocá-la. Em aceitar ser essa pessoa que ajuda, sim, mas que também se protege. Porque as pessoas que cuidam dos outros precisam, mais do que ninguém, que cuidem delas… incluindo elas próprias.
| Ponto-chave | Detalhe | Interesse para o leitor |
|---|---|---|
| O paradoxo da ajuda | Ajudar alimenta o sentido, mas pode aumentar o stress quando a carga emocional transborda | Perceber porque, por vezes, se sente vazio depois de ajudar toda a gente |
| O “sim escolhido” | Passar de um reflexo de disponibilidade total para respostas limitadas no tempo e na intensidade | Reduzir o cansaço sem deixar de estar presente para os outros |
| Limites como acto de cuidado | Definir fronteiras claras protege os seus recursos e a qualidade da sua ajuda | Preservar as relações ao longo do tempo, evitando ressentimento e exaustão |
FAQ:
- Porque é que me sinto culpado quando digo não a alguém que precisa de ajuda?
A culpa vem muitas vezes de crenças antigas: “se eu gosto, tenho de estar disponível o tempo todo”. Na realidade, dizer não em certos momentos permite manter-se presente durante mais tempo, sem colapsar.- Como saber se ajudo demais?
Esteja atento a três sinais: irritabilidade depois de ajudar, fadiga que não passa com o descanso e um pequeno ressentimento silencioso em relação a quem ajuda. Um destes sinais que persista merece atenção.- Isso quer dizer que é melhor deixar de ajudar de todo?
Não. A investigação mostra que a entreajuda bem doseada está associada a mais bem-estar e sentido. O objectivo não é parar de ajudar, mas evitar fazê-lo à custa total de si mesmo.- Como colocar um limite sem magoar o outro?
Fale na primeira pessoa: “Estou mesmo cansado hoje; posso ouvir-te 15 minutos, mas não mais do que isso.” Nomeia o seu estado sem acusar o outro e propõe um enquadramento claro.- E se as pessoas à minha volta se aproveitam da minha simpatia?
Observe as reacções quando começa a pôr limites. Quem o respeita adapta-se, mesmo que fique surpreendido. Quem insiste ou o faz sentir culpado pode estar a mostrar que a relação talvez estivesse assente na sua sobre-disponibilidade.
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