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A psicologia indica que quem cresceu nas décadas de 60 e 70 desenvolveu 7 forças mentais que hoje são cada vez mais raras.

Duas pessoas consertam dispositivo eletrônico numa mesa de madeira, com ferramentas e um telefone antigo ao fundo.

Cresceram com telefones fixos, verões longos e muito pouca coisa instantânea - e isso moldou as suas mentes de formas surpreendentes.

Psicólogos afirmam que as infâncias das décadas de 1960 e 1970 treinaram, de forma discreta, uma geração para lidar com o stress, o tédio e os contratempos de maneira muito diferente de muitas pessoas hoje. Sem smartphones, entretenimento a pedido ou entregas no dia seguinte, desenvolveram forças mentais que a cultura das redes sociais nem sempre recompensa, mas de que a vida moderna continua a precisar desesperadamente.

A era que treinou um tipo diferente de mente

Todas as gerações insistem que tiveram a vida mais difícil, mas esta história tem menos a ver com nostalgia e mais com ambiente. Crescer numa época em que os pais supervisionavam menos, o dinheiro era mais curto e a tecnologia avançava devagar criou microdesafios diários.

Esses pequenos atritos - caminhar em vez de ser levado de carro, esperar por uma música na rádio, arranjar coisas em vez de as substituir - funcionaram quase como um longo campo de treino de resiliência, não planeado.

As décadas de 1960 e 1970 não produziram super-heróis, mas normalizaram o desconforto de uma forma que, discretamente, fortaleceu o “músculo” psicológico.

Aqui estão sete forças mentais que a investigação associa a esse tipo de educação, e porque parecem raras numa era de deslizar e fazer scroll.

1. Elevada tolerância à frustração num mundo de baixa velocidade

Quem cresceu antes da banda larga lembra-se de esperar. Por autocarros, por fotografias reveladas, por cartas que chegavam. Não era possível “avançar” a vida normal.

Os psicólogos chamam à capacidade de manter a estabilidade perante esse tipo de irritação “tolerância ao mal-estar” (distress tolerance): gerir sentimentos difíceis sem exigir alívio imediato.

As pessoas que cresceram nos anos 60 e 70 tinham de:

  • Lidar com o tédio sem um ecrã
  • Esperar dias ou semanas por informação ou resultados
  • Aceitar que os planos não podiam ser mudados com uma simples mensagem

Esse ritmo lento funcionava como treino de força mental. Quando tudo não se dobra à tua vontade de imediato, aprendes a estar com o desconforto em vez de entrar em pânico por causa dele.

Ser capaz de tolerar frustrações ligeiras tem menos a ver com “dureza” e mais com liberdade face à urgência emocional constante.

2. Independência sem aplausos nem audiência

A liberdade na infância também era diferente. Muitas crianças dessa época iam a pé para a escola, andavam pelo bairro e resolviam pequenas crises sem comentários de adultos.

Não havia feedback em tempo real de centenas de seguidores, nem necessidade urgente de registar cada conquista. A independência era assumida, não transmitida.

Isto alimentou uma característica discreta, mas poderosa: agir a partir de padrões pessoais, em vez de agir para a performance. Os psicólogos podem chamar-lhe validação interna - o foco em “Fiz a coisa certa?” em vez de “Toda a gente me viu fazer?”.

Esse tipo de autodireção pode parecer raro numa cultura construída em torno de métricas, gostos e validação pública.

3. Uma relação prática com as emoções

Muitas pessoas que cresceram nos anos 60 e 70 nunca foram incentivadas na escola a “partilhar os seus sentimentos”. Algumas foram ensinadas a engoli-los, o que teve custos.

Ainda assim, existia um lado positivo inesperado: uma forte capacidade de continuar a funcionar quando as emoções estavam à flor da pele. Podias estar ansioso e, mesmo assim, ir trabalhar; triste e, mesmo assim, cuidar de irmãos mais novos.

Em termos psicológicos, isto aproxima-se da regulação emocional - não fingir que os sentimentos não existem, mas recusar que eles comandem tudo.

Sentir algo intensamente nem sempre significa agir de imediato; é nesse espaço entre sentir e agir que a resiliência vive.

4. Confiança social construída cara a cara

Se querias falar com alguém em 1975, normalmente tinhas de pegar no telefone ou bater à porta. Não havia mensagens cuidadosamente editadas, “stories” que desaparecem, nem confirmações de leitura (“visto”) atrás das quais te esconder.

Esse contacto presencial constante - e por vezes confuso - construiu o que os investigadores chamam autoeficácia social: a crença de que consegues lidar com interações quotidianas, conflito e momentos embaraçosos.

Prática offline vs contacto curado

Educação nos anos 60/70 Educação típica na era digital
Mais encontros não planeados e conflito em tempo real Mais comunicação por texto e filtrada
Leitura de tom, linguagem corporal, dinâmicas de grupo Leitura de emojis, indicadores de escrita, estado online
Menos fuga a momentos embaraçosos Saída fácil: silenciar, bloquear ou sair do chat

Esse estilo antigo de interação podia ser duro, mas também normalizava o atrito do dia a dia. Muitos que cresceram assim ficam menos abalados com uma reunião tensa ou uma chamada telefónica desconfortável.

5. Mentalidade de “desenrascar” em vez de substituir por defeito

Antes da moda rápida e das entregas no dia seguinte, deitar coisas fora era muitas vezes um último recurso. As famílias remendavam roupa, arranjavam rádios, reutilizavam frascos e esticavam as refeições.

Isto treinou um estilo de coping focado no problema: canalizar energia para “O que posso fazer com o que tenho?” em vez de cair numa espiral de queixa ou impotência.

Improvisar com recursos limitados cria uma confiança silenciosa: a sensação de que provavelmente consegues dar a volta, mesmo que as condições não sejam perfeitas.

Essa mentalidade não serve apenas para poupar dinheiro. Reduz a ansiedade em crises - desde um eletrodoméstico avariado a uma despesa inesperada - porque estás habituado a passar para o modo de ação.

6. Paciência para prazos longos e recompensas lentas

Carreiras, relações e projetos moviam-se de outra forma nos anos 60 e 70. Muitas vezes ficavas mais tempo no mesmo emprego, reparavas um casamento em vez de sair de imediato e esperavas anos para alguns objetivos darem frutos.

Os psicólogos falam frequentemente de gratificação diferida: a capacidade de trocar uma recompensa menor agora por uma melhor mais tarde. Uma infância sem entretenimento instantâneo e sem entregas no próprio dia dava prática diária desta competência.

Essa paciência pode parecer rara numa cultura que espera:

  • Sucesso rápido na carreira após alguns momentos virais
  • Picos emocionais imediatos em novas relações
  • Resultados visíveis de forma física em semanas, não em meses

Muitos dessa geração mais velha veem o progresso mais como uma estação do que como um “truque”. Plantas, cuidas, esperas - e aceitas que algumas colheitas levam anos.

7. Um sentido de identidade enraizado, não uma marca pessoal

Talvez a diferença mais marcante seja a forma como a identidade se construía. Pessoas nascidas nos anos 50 e 60 não cresceram a curar um feed nem a pensar em si próprias como uma “marca”.

Ainda enfrentavam pressão dos pares, expectativas de classe e julgamento social, mas não tinham o placar permanente e público de gostos e seguidores.

Para muitos, a autoestima vinha mais do comportamento do que da imagem: estar presente, trabalhar arduamente, ajudar a família, contribuir para a comunidade.

Quando quem tu és está ancorado no que fazes, ficas menos exposto à tempestade da comparação e da performance online.

Os psicólogos apontam que uma identidade estável funciona como isolamento psicológico. Se o teu sentido de quem és não oscila com a opinião externa, recuperas mais depressa de contratempos e críticas.

As gerações mais novas conseguem construir as mesmas forças?

Nenhuma destas características está presa a uma data de nascimento. Foram subprodutos de um ambiente - e os ambientes podem ser recriados de forma deliberada, pelo menos em pequena escala.

Formas práticas de treinar hoje “músculos mentais” dos anos 60 e 70

  • Agendar pequenas doses de tédio: fica dez minutos sem telemóvel e observa como a tua mente reage.
  • Fazer uma coisa desconfortável por dia: ligar em vez de enviar mensagem, trazer um tema difícil, fazer uma pergunta numa reunião.
  • Arranjar uma coisa antes de a substituir: coser um botão, apertar uma prateleira solta, resolver um problema de software sozinho.
  • Escolher um projeto de longo prazo: aprender uma língua, poupar, condição física - e comprometer-te por um ano, não por uma semana.

Estes micro-hábitos recriam alguns dos atritos com que as gerações mais velhas viviam por defeito, transformando-os em treino intencional em vez de ruído de fundo.

Porque é que estas forças importam agora

Duas tendências modernas tornam estas competências “à antiga” especialmente valiosas: estimulação constante e avaliação constante. Telemóveis, notificações e plataformas sociais bombardeiam a atenção e, ao mesmo tempo, julgam o desempenho em tempo real.

A elevada tolerância à frustração ajuda-te a resistir ao impulso de aliviar qualquer desconforto com scroll. A independência sem aplausos permite-te trabalhar em objetivos significativos, mas pouco visíveis. A regulação emocional impede que a indignação online se apodere do teu dia.

Há, claro, compromissos. As gerações mais novas mostram muitas vezes maior vocabulário emocional, mais vontade de procurar ajuda e limites mais fortes face a normas pouco saudáveis. A força mental em 2026 não precisa de parecer estoicismo de 1972.

Ainda assim, combinar o melhor das duas eras - a literacia emocional de hoje com a tenacidade silenciosa do passado - pode ser uma das escolhas mais protetoras que uma pessoa pode fazer.

Termos-chave que as pessoas muitas vezes confundem

Duas ideias psicológicas estão por baixo de grande parte desta história e são frequentemente confundidas:

  • Tolerância ao mal-estar (distress tolerance): manter-se presente com sentimentos desconfortáveis sem se apressar a fugir deles.
  • Supressão: empurrar os sentimentos para baixo e fingir que não existem.

As décadas de 60 e 70 por vezes inclinavam-se demasiado para a supressão, o que pode sair caro através de burnout ou problemas de saúde. O objetivo hoje aproxima-se mais de um caminho do meio: sentir o desconforto, reconhecê-lo, mas ainda assim escolher o teu comportamento de forma deliberada.

Visto por essa lente, as forças mentais da geração mais velha têm menos a ver com nostalgia e mais com condições de treino. Muda as condições - um pouco mais de lentidão, um pouco menos de conforto instantâneo - e esses traços raros podem voltar a crescer, independentemente da década que consta no teu bilhete de identidade.

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