Três décadas depois, novas investigações estão a revelar que esta chamada “Excalibur” não é um adereço de fantasia, mas sim uma arma do século X, forjada num contexto islâmico durante o auge de Al‑Andalus, quando o domínio muçulmano remodelou a vida quotidiana na Península Ibérica.
A descoberta de 1994 que parecia saída de um mito arturiano
A espada foi desenterrada em 1994, durante escavações de rotina no centro histórico de Valência. Os arqueólogos investigavam um antigo edifício doméstico perto do antigo fórum romano, outrora o coração movimentado da cidade antiga.
O que surpreendeu a equipa foi a forma como a arma apareceu. A lâmina estava cravada no solo numa posição quase vertical, ecoando a imagem clássica do rei Artur a retirar a Excalibur da pedra. A alcunha surgiu de imediato e nunca mais desapareceu.
Este pequeno recanto de Valência concentra camadas de história. Estruturas romanas, vestígios visigóticos e marcas da época islâmica sobrepõem-se sob as ruas. Encontrar ali uma espada não era, por si só, invulgar. Encontrar uma numa posição tão teatral, em bom estado e de um período pouco compreendido do passado da cidade, era outra história.
A posição vertical da espada deu-lhe uma presença quase cinematográfica, muito antes de se compreenderem a sua verdadeira idade e origem.
Na altura, porém, os especialistas não conseguiram determinar com clareza a data da arma. Foi catalogada e guardada pelo serviço municipal de arqueologia, conhecido como SIAM, onde ficou a ganhar pó durante anos.
Nova análise aponta claramente para Al‑Andalus
O ponto de viragem ocorreu quando o SIAM iniciou um projecto alargado para reavaliar as suas colecções antes do seu 75.º aniversário. Entre as caixas retiradas do armazenamento estava a espada “Excalibur” de Valência.
O arqueólogo local José Miguel Osuna liderou um novo exame da peça. Não se tratou de uma simples observação visual. Recorrrendo a técnicas espectroscópicas e a análise metalúrgica, a equipa estudou a composição do metal e os padrões de corrosão na lâmina e na guarda.
Os resultados situaram a espada no século X, época em que Valência fazia parte de Al‑Andalus, o vasto território sob domínio muçulmano que abrangia a maior parte do que é hoje Espanha e Portugal.
A arma é agora considerada uma rara espada de cavalaria do período islâmico, ligando Valência directamente às tradições militares e artesanais do califado omíada de Córdova.
Várias características sustentaram esta conclusão. A guarda, decorada com placas de bronze, corresponde a modelos conhecidos da época califal andalusina. A lâmina apresenta uma ligeira curvatura, forma estreitamente associada a guerreiros a cavalo que dependiam de golpes rápidos e de varrimento.
Porque é tão invulgar o estado de conservação da espada
Um pormenor impressionou os especialistas tanto quanto a sua origem: o estado do metal. Os solos valencianos tendem a ser ácidos, um pesadelo para artefactos de ferro. As armas costumam corroer até se fragmentarem, deixando apenas contornos fantasmagóricos na terra.
Esta espada, pelo contrário, sobreviveu notavelmente intacta. Isso sugere que foi enterrada num micro‑ambiente protector: talvez numa cova com composição de solo diferente, sob material de construção desabado ou envolvida em material orgânico que abrandou a corrosão.
Comprimento: cerca de 45 cm
Tipo: espada de uma mão, provavelmente usada a partir do cavalo
Guarda: decorada com placas de bronze típicas de armas do período omíada
Lâmina: ligeiramente curva, adequada a golpes de corte em movimento
Raridade: primeiro exemplar do género proveniente da Valência islâmica; único paralelo próximo vindo de Medina Azahara, perto de Córdova
A comparação com Medina Azahara, a sumptuosa cidade palatina do século X construída pelo califa Abd al‑Rahman III perto de Córdova, é impressionante. Apenas uma espada semelhante foi aí documentada, sublinhando quão raras são descobertas deste tipo.
Valência como encruzilhada sob domínio muçulmano
A nova datação da espada obriga a reavaliar o papel de Valência na Ibéria medieval. No século X, a cidade não era um posto remoto, mas um porto mediterrânico vibrante, ligado ao Norte de África, ao Médio Oriente e ao resto da Europa.
Sob Al‑Andalus, a região beneficiou de novas culturas agrícolas, sistemas de rega, rotas comerciais e estruturas legais. O árabe tornou-se língua de administração e de ciência, mas comunidades cristãs e judaicas continuaram a viver na área, trazendo as suas próprias tradições.
A espada materializa uma realidade quotidiana muitas vezes perdida nos manuais: a Valência islâmica era um lugar onde mercadores, soldados, eruditos e artesãos partilhavam ruas e, por vezes, campos de batalha.
Armas como esta teriam sido transportadas por guerreiros que defendiam governantes locais, patrulhavam rotas comerciais ou participavam em conflitos entre facções muçulmanas rivais e os emergentes reinos cristãos a norte.
Para os responsáveis municipais de hoje, o objecto transporta também uma mensagem política. Reforça a imagem de Valência como um polo cultural de longa duração, moldado por influências diversas, em vez de uma cidade medieval cristã monolítica.
O que a espada revela sobre a guerra em Al‑Andalus
O desenho da espada oferece pistas sobre como se combatiam as batalhas na Ibéria do século X. A curvatura moderada da lâmina sugere ataques de corte, sobretudo a partir do cavalo. Isto está em linha com tratados militares árabes que elogiam a cavalaria ágil em detrimento da infantaria pesada.
Nessa época, as forças andalusinas combinavam recrutas locais com contingentes berberes e árabes do Norte de África. As suas tácticas baseavam-se na velocidade, em formações flexíveis e no conhecimento do terreno. Uma espada leve e curva estava perfeitamente adaptada a acções de assédio, ataques-relâmpago e incursões rápidas.
A guarda revestida a bronze não era apenas decorativa. Melhorava a pega e protegia a mão, aumentando o controlo no combate corpo a corpo. Os metalurgistas de Al‑Andalus eram conhecidos por combinar função com pormenor estético, e esta arma enquadra-se nesse padrão.
Um breve olhar sobre termos-chave
Para leitores menos familiarizados com a história ibérica, alguns conceitos ajudam a contextualizar a descoberta:
| Termo | Significado |
|---|---|
| Al‑Andalus | Designação usada em fontes árabes medievais para os territórios sob domínio muçulmano na Península Ibérica (711–1492). |
| Período califal | Fase em que Córdova foi sede de um califado independente (século X–início do século XI), marcada por forte poder central. |
| Medina Azahara | Cidade palatina perto de Córdova construída no século X, símbolo da riqueza e autoridade omíadas. |
Porque é que os arqueólogos revisitam achados “antigos”
Este caso mostra como as reservas de museus ainda podem alterar narrativas históricas. Muitos artefactos escavados no século XX foram catalogados rapidamente, com tecnologia limitada. À medida que os métodos melhoram, reanalisá-los pode derrubar suposições anteriores.
A espectroscopia, por exemplo, permite aos investigadores identificar elementos vestigiais nos metais. Isso pode restringir técnicas de produção ou fontes de minério. Combinando esse dado com comparações tipológicas entre sítios, os estudiosos compreendem melhor redes de comércio e oficinas.
Há também uma lição prática para as autoridades do património. O financiamento tende a concentrar-se em novas escavações, mas reavaliar colecções existentes pode produzir resultados igualmente relevantes, com menor custo e menos perturbação das áreas urbanas.
Como esta história ressoa para além de Espanha
Para leitores no Reino Unido, nos EUA ou noutros locais, a “Excalibur islâmica” toca em debates mais amplos sobre património partilhado. As lendas arturianas são muitas vezes apresentadas como narrativas puramente europeias, separadas da história islâmica. Aqui, uma espada baptizada a partir da Excalibur revela-se moldada por artesanato muçulmano.
Esse contraste convida a uma visão mais matizada da Idade Média. O comércio, a guerra e o intercâmbio intelectual ligaram a Cristandade latina, o mundo islâmico e comunidades judaicas de forma muito mais estreita do que sugerem as narrativas nacionais modernas.
Um nome lendário associado a uma arma muito real de época islâmica capta a forma como mitos e história material podem colidir de maneiras inesperadas.
Para professores e entusiastas de história, a espada constitui um exemplo vívido para a sala de aula. Pode imaginar-se uma aula construída em torno dela: comparar o romantismo da Excalibur de Artur com a arma prática e curva de Valência; mapear as rotas que trouxeram tecnologia e ideias islâmicas para a Europa; ou pedir aos alunos que esbocem a história de vida do cavaleiro desconhecido que a empunhou.
A descoberta levanta também questões ainda em aberto. Terá a espada sido perdida em combate, escondida à pressa durante um ataque, ou colocada deliberadamente como parte de um ritual ou de uma fase construtiva? Análises futuras da estratigrafia envolvente e de artefactos próximos poderão aproximar-nos dessa resposta, mas, por agora, a lâmina permanece como um vestígio tangível de uma sociedade complexa e mestiça que continua a moldar a Espanha de hoje.
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