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Novo estudo afirma que alimentos biológicos são uma fraude e não são mais saudáveis do que produtos ultraprocessados.

Pessoa segura maçã e barra de cereal, usando lupa para ler rótulo; vegetais ao fundo.

A mulher à minha frente no supermercado hesita, com duas caixas de ovos nas mãos. Uma é a normal, 2,10 €. A outra tem o reconfortante logótipo da folha verde, “biológico”, a 4,60 €. Confere os rótulos como uma detetive, depois suspira e pousa a caixa biológica no carrinho, quase com culpa, como se estivesse a comprar perdão para si própria e não apenas o pequeno-almoço.

Todos já passámos por isso: aquele momento em que o cesto parece menos compras e mais um referendo moral.

Agora chega um novo estudo e, basicamente, diz: talvez estejam a enganar-te.

Biológico vs ultraprocessado: um choque que vende mais sentimentos do que factos

O novo artigo, de uma equipa europeia de investigação em nutrição, caiu como uma granada num mundo obcecado com saúde. A conclusão é dura: em média, a comida biológica não te torna mais saudável do que produtos ultraprocessados quando olhas para padrões reais de alimentação. Não para ingredientes isolados, analisados um a um.

Os investigadores acompanharam milhares de adultos ao longo de vários anos. Registaram o que as pessoas realmente comiam, não o que diziam num questionário anual. Depois cruzaram esses hábitos com marcadores de saúde como peso, tensão arterial e risco de doença crónica.

O que encontraram não bate certo com os cartazes brilhantes do supermercado.

Entre os participantes, quem comprava produtos biológicos não tinha automaticamente melhores resultados de saúde. Alguns até tinham dietas dominadas por bolachas biológicas, pizzas congeladas biológicas e refrigerantes biológicos, orgulhosamente carimbados com rótulos verdes, mas ainda carregados de açúcar, sal e farinha refinada.

Um dos autores resumiu o choque numa única frase: as pessoas estavam a “usar o biológico como um halo de saúde”. Desde que a palavra “biológico” estivesse na embalagem, o consumo subia e a culpa descia.

Quem comia ultraprocessados, por sua vez, não era uma caricatura única feita de batatas fritas e refrigerantes. Alguns tinham dietas equilibradas, com produtos fortificados, legumes congelados e cereais ricos em fibra que, surpreendentemente, tiveram bom desempenho nos dados.

A lógica do estudo é desconcertantemente simples. Primeiro: “biológico” descreve a produção, não o valor nutricional. Diz-te como o trigo foi cultivado, não o que o fabricante fez com ele depois. Quando esse trigo se transforma em cereais biológicos açucarados com cinco formas de açúcar, o teu corpo não quer saber que a agricultura foi sem pesticidas.

Segundo: o que prejudica ou ajuda a saúde é o padrão global de alimentação, dia após dia. Não um nobre saco de cenouras biológicas pousado em cima de uma montanha de snacks biológicos adoçados.

Sejamos honestos: ninguém lê todos os rótulos todos os dias.

Como ver para lá do logótipo verde e proteger realmente a tua saúde

Se queres proteger o corpo e não a consciência, o primeiro passo não é fugir do biológico ou dos ultraprocessados. É focar em três linhas aborrecidas, mas poderosas: açúcar, sal e fibra.

Olha para a parte de trás da embalagem, não para a frente. Ignora as folhas, os campos, as vacas felizes, as letras “naturais”. Faz três perguntas rápidas: o açúcar está nos primeiros três ingredientes? O sal está altíssimo para uma porção pequena? Há pelo menos alguma fibra se for suposto ser à base de cereais?

Este pequeno ritual de 20 segundos bate qualquer logótipo.

As pessoas caem na mesma armadilha repetidamente: substituem a satisfação moral pela realidade nutricional. Compram gomas biológicas para os filhos e sentem-se virtuosas. Pedem nuggets ultraprocessados à base de plantas e sentem-se “eco-conscientes”. Esquecem-se de que estes produtos continuam a ser concebidos para atingir “pontos de prazer” - salgado, doce, gorduroso - com ou sem logótipos.

Se já te sentiste confuso ou enganado pela embalagem, isso não significa que sejas ingénuo. Significa que o marketing está a funcionar exatamente como foi desenhado. Até profissionais de nutrição admitem que se deixam seduzir por um design “limpo” e cores verdes.

As empresas alimentares contam com o facto de nenhum de nós ter tempo para ser cientista a tempo inteiro no corredor do supermercado.

O investigador principal do novo estudo não disse “nunca compres biológico” nem “come lixo sem pensar”. A mensagem dele foi mais discreta e menos apelativa: “As pessoas devem focar-se menos em rótulos como ‘biológico’ e mais em padrões alimentares globais ricos em alimentos minimamente processados.”

  • Olha para os ingredientes antes dos logótipos: se a lista é longa, complexa ou cheia de adoçantes e óleos refinados, o método de cultivo não vai corrigir isso por magia.
  • Dá prioridade a alimentos integrais em vez de versões “saudáveis” de guloseimas: batatas fritas biológicas continuam a ser batatas fritas; barras ultraprocessadas continuam a ser barras.
  • Usa biológico onde isso realmente importa para ti: por razões ambientais, sabor, ou culturas específicas que te preocupam - não como um escudo global de saúde.

Para lá do título “scam”: o que isto diz sobre como comemos e o que tememos

Este estudo não anula a comida biológica. Fura a fantasia de que um logótipo consegue desfazer um estilo de vida inteiro. Para alguns, o biológico continua a fazer sentido pelo impacto ambiental, pela qualidade do solo, por reduções específicas de pesticidas. Para outros, é financeiramente inacessível e apenas acrescenta stress e vergonha na caixa.

A verdade desconfortável é que tanto o biológico como o ultraprocessado vivem no mesmo mundo: um sistema alimentar que vende emoção tanto quanto vende calorias. Medo de toxinas. Medo da gordura. Medo de envelhecer mal. E, do outro lado, a promessa de pureza, controlo, vida “limpa”.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Biológico é um rótulo de agricultura, não uma garantia de saúde Regula sobretudo pesticidas e métodos de produção, não açúcar, sal ou processamento Ajuda-te a não confundir escolhas ecológicas ou éticas com benefícios automáticos para a saúde
O padrão global da dieta importa mais do que qualquer logótipo Os resultados de saúde estão ligados a hábitos diários e à qualidade global da alimentação Incentiva mudanças a longo prazo e realistas, em vez de produtos “mágicos” caros
Aprender a ler rótulos é melhor do que seguir tendências Verificações simples de açúcar, sal, fibra e ingredientes dão um retrato mais claro Devolve-te controlo no supermercado, mesmo com pouco tempo ou orçamento apertado

FAQ:

  • A comida biológica é mesmo um embuste depois deste estudo? Não exatamente. O “embuste” é acreditar que biológico significa automaticamente mais saudável para o teu corpo. O biológico pode ter benefícios ambientais ou éticos, mas não transforma bolachas em comida saudável.
  • Então posso comer ultraprocessados sem me preocupar? Podes incluir alguns ultraprocessados numa dieta geralmente equilibrada, sobretudo os que têm pouco açúcar, sal e aditivos. O problema começa quando os ultraprocessados se tornam a base de todas as refeições.
  • Devo deixar de comprar produtos biológicos por completo? Não é preciso extremos. Se gostas de biológico pelo sabor, pelas práticas agrícolas ou por itens específicos, mantém. Só não uses “biológico” como desculpa para comer em excesso ou ignorar o resto da tua dieta.
  • Qual é uma forma simples de melhorar a minha alimentação já? Acrescenta mais uma porção de alimento não processado por dia: fruta, legumes, iogurte natural, frutos secos, leguminosas. Troca apenas um snack “com marca de saúde” por algo simples e reconhecível.
  • Todos os ultraprocessados são automaticamente maus? Não. Alguns são práticos e até úteis, como legumes congelados, tofu simples ou cereais fortificados com pouco açúcar. O perigo está nos produtos muito palatáveis, pobres em fibra e ricos em açúcar ou sal, que afastam a comida de verdade.

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