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Porque certas memórias surgem em momentos de silêncio e como focar a atenção

Pessoa segurando chá em mesa com livro aberto, relógio e foto.

Estás a lavar a loiça, a fazer scroll sem rumo, ou deitado na cama antes de adormecer. Do nada, uma cena de há cinco, dez, vinte anos ganha nitidez. A piada que não teve graça numa festa. A vez em que respondeste torto a um amigo. O modo como alguém te olhou e ainda hoje não sabes o que aquilo queria dizer. O teu corpo reage antes do teu cérebro: peito apertado, um pequeno sobressalto no estômago, um “ugh” baixinho entre dentes.
Depois o momento passa, a torneira continua a correr, o ecrã do telemóvel continua a brilhar.
Mas uma parte de ti ainda está naquela sala antiga, com aqueles sentimentos antigos, a perguntar: porquê isto, porquê agora?

Porque é que os momentos de silêncio acordam memórias antigas

O cérebro não gosta tanto de silêncio como pensamos. Quando o ruído exterior baixa, o ruído interior tende a subir. Esses intervalos enquanto tomas banho, te deslocas, esperas numa fila ou ficas a olhar para o tecto tornam-se convites abertos para a mente ir mexer nos arquivos. Não nas memórias fofas, com filtro de Instagram. Muitas vezes nas embaraçosas, por resolver, ligeiramente dolorosas.

O teu cérebro não está a tentar castigar-te. Está a tentar concluir alguma coisa. Assuntos emocionais inacabados têm a tendência de vir à tona quando não há mais nada a competir por espaço.

Imagina uma viagem de comboio para casa à noite. Sem notificações, ninguém a falar, só as luzes desfocadas do lado de fora da janela. De repente estás de volta ao secundário, a ouvir um comentário sarcástico de um professor que fingiste que não te afectou. Sentes o mesmo calor nas faces. Passas a cena uma e outra vez, reescrevendo as respostas na tua cabeça.
Ou lembras-te de uma mensagem de fim de relação que enviaste depressa demais, a repetir o exacto momento em que carregaste em “enviar”. O comboio avança. A tua mente recua.

Há um nome para esta tendência: a default mode network (rede em modo padrão), um conjunto de regiões do cérebro que se activa quando não estás concentrado numa tarefa. Essa rede adora três coisas: vasculhar o passado, simular o futuro e verificar o teu lugar social no mundo. Portanto, quando finalmente páras, ela começa a trabalhar. Memórias antigas com carga emocional ficam assinaladas como alta prioridade. Passam à frente na fila.
O que parece aleatório é, muitas vezes, o teu cérebro a dizer em silêncio: “Ainda não sabemos o que fazer com isto.”

Ancorar a atenção quando o passado sequestra o presente

Um gesto surpreendentemente eficaz é absurdamente simples: dar nome ao que está a acontecer, em voz alta se puderes. “Memória. Há dez anos. Corpo tenso. Sentado no sofá, noite de terça-feira.” Essa pequena narração muda-te de estar dentro da memória para a estares a observar. Já não és o adolescente na cena; és o adulto a vê-la como um clip curto.

Depois, traz um sentido para um foco nítido. Sente os pés no chão. Repara em três sons na divisão. Procura cinco objectos que sejam azuis. Rápido, concreto, quase infantil. Puxa o teu cérebro de volta para a sala em que realmente estás.

A maioria de nós faz o contrário. Surge uma memória, odiamo-la e lutamos com ela. Discutimos, corrigimos, reescrevemos, defendemo-nos. Quando acabamos, passámos vinte minutos num tribunal mental, a ensaiar falas que ninguém vai ouvir. Essa luta interior costuma cimentar a memória em vez de a deixar suavizar.

Há ainda a armadilha clássica de te julgares por sequer teres o pensamento. “Porque é que ainda estou a pensar nisto? O que é que há de errado comigo?” Essa camada dupla de vergonha é exaustiva. É só um cérebro a fazer o que os cérebros fazem quando tudo fica quieto.

“Não tens de ganhar a discussão dentro da tua cabeça. Só tens de voltar à sala em que já estás.”

  • Pára para três respirações lentas, com a expiração mais longa do que a inspiração.
  • Rotula em silêncio: “a recordar”, “a preocupar-me”, “a repetir”, “a planear”. Sem dissertações, só uma palavra.
  • Ancora-te num sentido: sente o tecido na pele, ou o peso do telemóvel na mão.
  • Pergunta com gentileza: “Do que é que esta versão de mim precisa agora?” E depois oferece-te esse tom.
  • Devolve a atenção a uma tarefa pequena: limpar a bancada, regar uma planta, confirmar datas no teu calendário.

A estranha utilidade das memórias que não te largam

Algumas memórias reaparecem porque são conversas inacabadas contigo próprio. Houve um limite que não soubeste estabelecer, um pedido de desculpa que nunca deste ou recebeste, uma versão de ti que não tinha as ferramentas que tens hoje. Quando o silêncio chega, esse “eu” mais antigo bate à porta.

Isto não significa que tenhas de ir desenterrar todas as pessoas envolvidas ou reviver cada detalhe. Às vezes o verdadeiro trabalho é apenas reconhecer: “Isto foi difícil, e eu estava a fazer o melhor que sabia com o que tinha.” Uma frase honesta assim pode libertar mais tensão do que um julgamento mental completo.

Outras vezes, o reaparecimento é o teu sistema nervoso a procurar perigo que antes lhe escapou. Uma piada cruel, um desprezo subtil, a forma como alguém revirou os olhos. O teu corpo registou aquilo como “inseguro”. Anos depois, qualquer pequeno eco pode acordar o ficheiro inteiro. Isso não é fraqueza. É reconhecimento de padrões em horas extraordinárias.

O truque é ires ensinando, com suavidade, ao teu sistema o que é verdade agora. Estás mais velho. Tens escolhas diferentes. Podes ir-te embora, falar, bloquear o número. Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias, sem falhar. Ainda assim, quanto mais vezes te ancoras no presente, menos poder esses “best-of” antigos têm sobre ti.

Portanto, quando a próxima memória aleatória entrar pela tua cabeça durante um banho ou um scroll à meia-noite, repara no que ela está a tentar fazer. Está a proteger-te? A pedir reparação? A mostrar-te um valor que ainda não estavas a viver? Há espaço para curiosidade sem seres engolido. Tu decides quanta energia lhe dás. Tu escolhes quando voltar à tua respiração, ao teu corpo, à tua vida real.
O passado vai sempre bater à porta. Nem sempre tens de o convidar para um café.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Os momentos de silêncio activam a default mode network O cérebro revê acontecimentos emocionais do passado quando não está focado em tarefas Normaliza flashbacks súbitos e reduz a auto-culpabilização
A ancoragem usa os sentidos e rótulos simples Reparar nos pés no chão, nomear “a recordar”, encontrar objectos por cor Oferece ferramentas rápidas e práticas para voltar ao presente
Memórias recorrentes apontam para assuntos por concluir Cenas antigas costumam sinalizar necessidades não atendidas, limites não ditos ou valores Transforma momentos intrusivos em oportunidades de auto-compreensão gentil

FAQ:

  • Porque é que memórias embaraçosas aparecem quando estou a tentar adormecer? Porque a estimulação externa diminui, a tua default mode network intensifica-se e volta a passar momentos socialmente carregados para “verificar” ameaças ou assuntos por concluir.
  • Isto significa que há algo de errado com a minha saúde mental? Não necessariamente; flashbacks ocasionais e aleatórios são comuns e só se tornam preocupantes se forem constantes, angustiantes, ou ligados a trauma que interfira com a vida diária.
  • Devo tentar analisar todas as memórias que reaparecem? Não propriamente; um toque leve resulta melhor - repara, nomeia, vê se está a pedir alguma coisa e depois regressa com gentileza ao presente.
  • Os exercícios de ancoragem podem mesmo mudar o que eu recordo? Não apagam a memória, mas podem mudar a reacção do teu corpo e reduzir a carga emocional associada ao longo do tempo.
  • Quando vale a pena falar com um terapeuta sobre isto? Se as memórias forem avassaladoras, provocarem pânico ou te impedirem de dormir, trabalhar ou ligares-te aos outros, apoio profissional pode transformar o caos numa história mais clara e mais segura.

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