A mensagem apareceu no grupo encriptado de WhatsApp às 07:41, quando Paris ainda acordava. «Está feito. Jacarta assina com os americanos.» Um executivo da Dassault, a lê-la sozinho na cozinha, deixou cair a colher do café. Meses de visitas discretas, sessões fotográficas sorridentes, PowerPoints pela noite dentro - desaparecidos numa única linha. Três mil e duzentos milhões de euros em caças Rafale, evaporados algures entre o átrio de um hotel em Jacarta e um gabinete ministerial em Paris.
Sem conferência de imprensa, sem drama público. Apenas um silêncio que pareceu mais alto do que qualquer comunicado oficial.
Nos bastidores, os telemóveis começaram a vibrar - e depois a gritar.
Alguém, em algum lugar, tinha jogado outro jogo.
Como a França viu um sonho de 3,2 mil milhões de euros escapar-lhe
Nos hangares de Mérignac, perto de Bordéus, o Rafale parece menos uma máquina e mais uma promessa. Os técnicos passam as mãos ao longo da fuselagem como se fosse um puro-sangue. Na manhã em que o negócio indonésio morreu em silêncio, as equipas continuavam a mover-se com a precisão habitual. Ainda assim, todos tinham a mesma pergunta não dita no olhar: «O que é que aconteceu?»
A história oficial foi simples e insípida. «Escolha estratégica». «Restrições orçamentais». «Diversificação de parceiros». Frases que soam bem em comunicados e não dizem quase nada na vida real.
Poucas semanas antes, o chefe da força aérea de Jacarta tinha feito uma visita completa a bases aéreas francesas. Fotografias com pilotos, selfies no cockpit, imagens cuidadosamente encenadas para as redes sociais. Os responsáveis franceses saíram dessas visitas convencidos de que faltava apenas uma assinatura.
Depois vieram os sinais que só se notam quando já é tarde. Uma reunião adiada no Ministério da Defesa. Uma chamada do comité técnico que «precisa de ser reagendada». Uma nova delegação americana, subitamente muito visível nos hotéis de Jacarta.
Quando Paris percebeu que o vento tinha mudado, o Memorando de Entendimento com que todos contavam já tinha sido substituído por outro, carimbado com outra bandeira.
Por detrás da perda deste contrato de 3,2 mil milhões de euros há uma cadeia de pequenas traições e hesitações silenciosas. Não um único traidor espetacular, mas um mosaico de agendas concorrentes. Embaixadas rivais a fazer circular estimativas de custos. Intermediários locais a jogar nos dois lados. Parceiros europeus satisfeitos por ver a França tropeçar.
A França gosta de apresentar contratos de armamento como pura lógica industrial, mas quem está no terreno sabe que eles se parecem mais com xadrez do que com contabilidade. Uma palavra errada de um ministro, uma chamada tardia de um presidente, um general irritado na capital do comprador - e o negócio começa a vacilar. Mais um empurrão, e cai.
Quem é que realmente «traiu» a França?
Em Paris, o primeiro reflexo foi olhar para fora. Culpar a pressão de Washington, dizer que Jacarta cedeu às garantias de segurança habituais, argumentar que a França não consegue competir com a alavanca americana no Pacífico. Essa história é confortável. Evita olhar para o espelho.
Porque, se se falar com negociadores off the record, emerge outra narrativa. A França chegou com um bom avião e um preço sólido, mas com uma mensagem fraturada. A indústria de um lado, a diplomacia de outro, os militares com a sua própria linguagem. Sem um verdadeiro maestro.
Veja-se esta cena, relatada por um conselheiro francês que estava em Jacarta «na semana em que tudo virou». Durante uma reunião estratégica, a parte indonésia fez uma pergunta direta sobre transferências de tecnologia e montagem local. A delegação francesa deu três respostas diferentes em menos de 40 minutos. Uma da Dassault. Uma da DGA (Direção-Geral do Armamento francesa). Uma de um jovem diplomata a tentar acalmar a sala.
Do outro lado da cidade, a equipa americana repetia os mesmos três pontos, com disciplina quase militar. Sem contradições. Sem improvisos. Uma narrativa clara: interoperabilidade, parceria de longo prazo, estratégia do Pacífico. Não estavam apenas a vender aviões. Estavam a vender um campo a que pertencer.
Sejamos honestos: quase ninguém lê anexos de 200 páginas sobre «parcerias estratégicas» antes de escolher um caça.
O que os compradores observam é quem lhes liga - e quando. Quem se lembra de um feriado nacional. Quem propõe exercícios conjuntos antes de falar de preço. A França tem engenheiros e pilotos de classe mundial, mas a sua continuidade política muitas vezes parece distraída. Enquanto Paris estava envolvida em protestos internos sobre pensões, Washington enviou discretamente emissários séniores para Jacarta para falar sobre a China, rotas marítimas e partilha de informações.
Quem traiu a França? Talvez não exista um único vilão numa sala cheia de fumo. Talvez seja um sistema que ainda acredita que um bom produto se vende sozinho num mundo onde a lealdade é leiloada todos os dias.
As regras escondidas destas batalhas de milhares de milhões
Se há um «método» que os insiders repetem, é este: não se ganha um contrato de caças nos últimos seis meses. Ganha-se nos dez anos anteriores. Cada exercício conjunto, cada missão de treino, cada bolsa para um oficial estrangeiro é uma moeda num mealheiro longo e paciente.
É aí que os franceses, por vezes, saem do guião. Chegam fortes à fase de negociação, com brochuras brilhantes e voos de demonstração impressionantes, mas frequentemente entram tarde no pré-jogo invisível. As equipas americanas, por outro lado, mapeiam cada general decisivo, cada conselheiro-chave, com anos de antecedência. Depois constroem a relação tijolo a tijolo, longe das câmaras.
Para países como a Indonésia, escolher entre Rafale e caças americanos nunca é apenas uma questão de aerodinâmica. É sobre quem atende o telefone às 3 da manhã durante uma crise fronteiriça. Sobre quem consegue pressionar o FMI se a economia colapsar. Sobre quem consegue fazer passar um contratorpedeiro por um estreito disputado sem pestanejar.
Os negociadores franceses sabem isto, mas por vezes subestimam o lado emocional. O medo de ser abandonado. A ansiedade de ficar isolado num conflito regional. Um avião bonito sem um guarda-chuva de proteção credível parece, para muitos compradores, um carro de luxo sem seguro. Todos já passámos por isso: aquele momento em que a escolha lógica parece menos segura do que aquela que o instinto sussurra.
Um oficial indonésio reformado, falando off the record, resumiu-o com uma clareza desarmante: «Adoramos o Rafale. Mas tememos o dia em que precisaremos de mais do que um avião - e só os americanos virão.»
- Acesso a informações partilhadas: não apenas dados, mas a sensação de estar dentro do «clube».
- Proteção política de longo prazo: quem se levantará na ONU quando as coisas ficarem tensas.
- Manutenção e peças sobressalentes durante crises: se a cadeia de abastecimento aguentará sob sanções ou guerra.
- Percursos de formação: onde se formam os futuros coronéis e generais - e por quem.
- Alinhamento simbólico: o que possuir este avião diz sobre o seu lugar no mundo.
Para além de um contrato perdido: um mal-estar mais profundo
O negócio Rafale de 3,2 mil milhões de euros perdido dói no papel, mas o que mais fere nos corredores parisienses é o padrão que revela. Uma França que ainda se vê como potência central e descobre, contrato após contrato, que o jogo mudou para outro tabuleiro.
Cada falhanço deixa um eco longo. Menos financiamento para investigação futura. Dúvidas noutras capitais que ainda «hesitam». Mais pressão de parceiros que perguntam em voz baixa: «Têm a certeza de que conseguem garantir, politicamente, a entrega daqui a dez anos?»
Do lado indonésio, a decisão já pertence ao passado. Os pilotos treinam em novos simuladores. Os mecânicos aprendem novos procedimentos. As bandeiras americana e indonésia aparecem lado a lado em cartazes oficiais. A vida segue, como sempre acontece nos negócios de defesa assim que a tinta seca.
Em França, a autópsia mal começou. Investigações, audições, jogos discretos de culpas entre ministérios. Uns chamam-lhe traição, outros um alerta. A verdade estará provavelmente algures no meio - uma mistura de orgulho ferido, erros de cálculo estratégicos e um mundo que já não espera que a elegância francesa apanhe a realidade.
O que fica é uma pergunta que vai além de Rafales e balanços. Num século em que as alianças mudam mais depressa do que nunca, como protege uma potência de média dimensão a sua influência sem perder a alma? Quem trai realmente quem quando um país se vira para outra bandeira - o vendedor que não lutou com força suficiente, o comprador que escolheu segurança em vez de tradição, ou um sistema global que recompensa apenas os mais ruidosos e os maiores?
Da próxima vez que uma fotografia sorridente de uma digressão de um caça francês aparecer no seu feed, saberá que a história real está a acontecer em salas que nunca verá. Entre pessoas que já sabem que a traição, se vier, raramente terá o aspeto de uma faca nas costas. Mais como uma porta que se fecha suavemente, sem som.
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o leitor |
|---|---|---|
| Os negócios de armamento são jogos longos | Os contratos decidem-se anos antes através de relações, não apenas por especificações | Ajuda a decifrar futuras manchetes para lá das explicações oficiais |
| A mensagem fragmentada de França | Indústria, militares e diplomacia falam muitas vezes com vozes diferentes | Explica porque um produto forte pode, ainda assim, perder estrategicamente |
| A segurança vence a tecnologia | Os compradores priorizam proteção política e alianças acima do desempenho puro | Dá uma lente simples para perceber porque os EUA ganham tantos negócios |
FAQ
Pergunta 1: A Indonésia cancelou mesmo um contrato Rafale de 3,2 mil milhões de euros, ou era apenas uma fase de negociação?
Resposta 1: O valor de 3,2 mil milhões de euros reflete o montante estimado de um pacote Rafale em discussão, incluindo aeronaves e apoio, e não um contrato totalmente assinado e fechado. O que Jacarta abandonou foi uma fase avançada de negociações que, em Paris, muitos já tratavam como praticamente concluída - o que explica o choque.Pergunta 2: Houve um «traidor» dentro do campo francês a divulgar informação?
Resposta 2: Não há prova pública de um único traidor identificável. O que as fontes descrevem é, em vez disso, uma teia de fugas de informação, lobbying rival e mensagens contraditórias. Rivalidades internas, briefings não coordenados e agendas concorrentes criaram vulnerabilidades que os concorrentes puderam explorar sem necessidade de um infiltrado à James Bond.Pergunta 3: O Rafale é tecnicamente inferior aos jatos americanos que a Indonésia escolheu?
Resposta 3: Em muitos critérios de desempenho, o Rafale é competitivo ou até superior, e já provou o seu valor em combate. A decisão teve menos a ver com tecnologia bruta e mais com geopolítica: interoperabilidade com sistemas dos EUA, garantias de segurança percecionadas e alinhamento com a estratégia de Washington para o Pacífico.Pergunta 4: A França poderia ter salvo o negócio com um impulso político de última hora?
Resposta 4: A pressão de última hora por vezes pode inclinar uma decisão renhida, mas quando Paris percebeu plenamente a dimensão do regresso de Washington, o terreno político já estava preparado em Jacarta. As jogadas decisivas - visitas de alto nível, conversações de segurança, partilha de informações - tinham sido feitas meses, até anos, antes.Pergunta 5: O que é que esta perda muda para as futuras exportações de armamento da França?
Resposta 5: O impacto imediato é financeiro e reputacional, mas o efeito mais profundo é estratégico: cada grande negócio perdido torna os futuros compradores mais cautelosos. A França provavelmente terá de apertar a coordenação entre diplomacia, indústria e forças armadas, e aceitar que vender caças hoje significa vender um ecossistema político completo - não apenas um pedaço de metal e software.
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