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Reformados que cedem terrenos a apicultores pagam impostos, mas poluidores recebem subsídios.

Apicultores a cumprimentarem-se cordialmente num campo, com colmeias coloridas ao fundo.

Numa manhã suave de primavera - daquelas em que a relva ainda deixa os sapatos molhados - Jean-Claude caminha entre as suas velhas macieiras, com uma caneca de café na mão. Tem 72 anos, está reformado dos correios e orgulha-se das três colmeias de madeira instaladas na extremidade do seu campo. As caixas não são dele. Pertencem a uma jovem apicultora que não tem terra, apenas entusiasmo e colónias zumbidoras.

O acordo é simples: ele empresta um pedaço do prado, ela instala as abelhas, conversam uma vez por semana. A aldeia ganha jardins mais polinizados. E ninguém fica rico.

Depois, um dia, chega um envelope castanho à sua caixa do correio. Finanças. Declaração de “vantagem em espécie” por ceder terreno.

Um gesto calmo e generoso passa, de repente, a ter uma etiqueta de preço.

Quando a generosidade de repente se torna “utilização de terreno tributável”

A carta das Finanças não fala a linguagem das flores e do zumbido. Fala de avaliação do terreno, benefício de renda, potencial rendimento não declarado. Jean-Claude lê duas vezes. A mulher lê três. Ninguém percebe por que razão emprestar 200 metros quadrados para salvar abelhas pode ser tratado como um pequeno negócio imobiliário.

Ainda assim, é isto que está a acontecer em cada vez mais zonas rurais. Reformados que abrem os seus prados a apicultores estão a ser informados de que podem dever dinheiro. O sistema fiscal vê uma “utilização do terreno”. Não vê os cestos de fruta mais cheios, as hortas que de repente prosperam, nem os netos que ficam boquiabertos a ver um enxame regressar ao entardecer.

Na aldeia ao lado, Marie, 68 anos, fez o mesmo. Deixou um apicultor local instalar uma dúzia de colmeias no seu antigo pasto, há muito abandonado porque os joelhos já não aguentam o trabalho. Sem renda, sem contrato. Apenas um aperto de mão e alguns frascos de mel deixados na mesa da cozinha.

No ano passado, recebeu um pedido de esclarecimento das autoridades fiscais a perguntar se o terreno estava a ser arrendado. Sugeriam que poderia ter de declarar “compensação não monetária”. Mel, basicamente. “Então os meus três frascos de mel são tributáveis e o meu campo de trevo não vale nada se não houver abelhas?”, resmungou, meio a brincar, meio furiosa. Nessa noite, pensou seriamente em dizer ao apicultor para desmontar tudo e ir embora.

Por detrás destas cartas há uma lógica fria. O código fiscal, feito a pensar em grandes proprietários e grandes explorações, trata quase qualquer utilização do solo como potencialmente comercial. Sabe tributar um armazém, um parque de estacionamento, um campo arrendado. Tem dificuldade com a generosidade.

O problema não é que os reformados estejam a tornar-se magnatas apícolas bilionários. O problema é que a lei não distingue entre um acordo empresarial e um gesto social e ecológico, em escala minúscula. Aplicam-se as mesmas regras quer sejam 20 hectares de cereal industrial, quer seja um canto de jardim ao lado de uma roseira. E este ponto cego desencoraja, silenciosamente, exatamente os comportamentos que as campanhas públicas dizem querer: apoiar a biodiversidade, ajudar jovens agricultores, reconstruir ecossistemas parcela a parcela.

Quando os poluidores recebem cheques e os aliados das abelhas recebem contas

Do outro lado da vila, chega outro envelope, mas este não traz aquele leve cheiro de ansiedade. É um aviso de pagamento. Uma empresa agroindustrial local acaba de receber um subsídio simpático para “modernização de equipamento”, o que, na prática, significa pulverizadores maiores e distribuição química mais eficiente. Nas mesmas terras onde se arrancaram sebes e onde manda a monocultura, o dinheiro público corre no sentido contrário.

O contraste é brutal. Um reformado que empresta um pedaço para abelhas é escrutinado. Uma empresa que espalha pesticidas recebe apoio para se manter competitiva. O balanço da política pública parece uma anedota de mau gosto escrita à custa do bom senso.

Vejamos um cenário típico. Um produtor de cereais recebe apoios baseados, entre outros fatores, na dimensão da terra e na produção declarada. É incentivado a manter as produtividades altas e as margens estáveis. Quando as coisas correm mal, entram seguros e ajudas de emergência.

A poucos quilómetros, uma apicultora luta com colónias em declínio, afetadas pelos mesmos pesticidas e monoculturas que os subsídios ajudam a manter. Encontra refúgio em pequenos terrenos privados oferecidos por reformados e pequenos proprietários. Não há ajuda oficial para as abelhas. Não há benefício fiscal específico para quem acolhe colmeias. Apenas o stress constante de perder colónias e, ocasionalmente, a espada administrativa suspensa sobre a cabeça de todos.

Visto de longe, o quadro é quase surreal. De um lado, orçamentos públicos a sustentar práticas que degradam o solo, envenenam insetos e simplificam paisagens em desertos verdes. Do outro, pequenos atos que efetivamente reparam esses danos ficam presos na burocracia.

A parte mais chocante nem é a contradição. É a história contada aos cidadãos. Somos exortados a “proteger a biodiversidade”, a “agir localmente”. No entanto, quando as pessoas o fazem, as regras tratam-nas como microempreendedores suspeitos. O sistema diz “obrigado” com uma mão e “onde está a minha parte?” com a outra. A certa altura, as pessoas desistem. E quando desistem, as abelhas não apresentam queixa. Simplesmente desaparecem.

Como reformados e apicultores se podem proteger sem desistir

Felizmente, há algumas formas práticas de navegar este campo minado. A primeira é pôr por escrito o que toda a gente já sabe no coração: isto não é um arrendamento, é um empréstimo gratuito. Um documento curto e simples pode ajudar, mesmo manuscrito. Deve indicar que o terreno é cedido a título gratuito, para uso ambiental e agrícola não comercial, sem renda nem compensações escondidas.

Alguns reformados acrescentam uma linha muito concreta: os frascos de mel são ofertas, não pagamento. Parece óbvio, quase infantil ter de o especificar. Contudo, esta única frase pode mudar a forma como o gesto é interpretado se surgirem perguntas. A burocracia adora papel. Dê-lhe um papel que conte a história verdadeira.

Segundo reflexo: falar com um contabilista ou consultor fiscal local, um sindicato agrícola, ou até a associação profissional do apicultor. Não para uma auditoria grande e cara, apenas para uma conversa de 20 minutos ao balcão. Muitas vezes existem tolerâncias, limiares ou interpretações locais que suavizam a leitura rígida da lei. E as pessoas atrás desses balcões, por vezes, estão tão exasperadas quanto você com situações absurdas.

Todos conhecemos esse momento em que uma pequena dúvida administrativa começa a corroer a alegria de fazer algo generoso. A tentação é dizer: “Esquece, não vale o trabalho.” É exatamente esse pensamento que vai drenando vida de aldeias e jardins.

Terceira ideia: tirar a discussão das sombras. Um telefonema ao presidente da câmara, uma carta ao órgão regional, uma pergunta numa reunião pública. Quando os casos individuais se tornam visíveis, as regras deixam de parecer tão teóricas. E vai-se criando pressão, discretamente, para mudarem.

“Sem o casal reformado que me emprestou a terra de graça, teria perdido metade das minhas colmeias”, confidenciou uma jovem apicultora. “Não me pediram um cêntimo. No dia em que receberam uma carta das Finanças, pediram-me desculpa como se tivessem feito algo errado.”

  • Redigir um acordo simples de cedência: uma página, assinada por ambas as partes, a indicar que o terreno é cedido a título gratuito para apicultura e biodiversidade.
  • Clarificar que o mel ou pequenos presentes são simbólicos: descrevê-los como ofertas ocasionais, não como renda ou compensação regular.
  • Manter-se abaixo do radar de atividade “profissional”: acolher um número razoável de colmeias e evitar sinalização pública que sugira um local comercial.
  • Pedir esclarecimento por escrito às autoridades locais: um e-mail curto, datado, de um serviço fiscal ou agrícola pode ser precioso em caso de litígio futuro.
  • Ligar-se a outros anfitriões e apicultores: a experiência coletiva deteta problemas cedo e traz soluções partilhadas.

Repensar quem recompensamos: o poder silencioso dos pequenos gestos

A questão mais profunda por trás desta história fiscal estranha é simples: quem recompensamos enquanto sociedade? Quem espalha químicos por milhares de hectares ou quem empresta um prado esquecido para que as abelhas se alimentem? Os orçamentos públicos dizem uma coisa. O bom senso diz outra.

Uma nota de liquidação enviada a um reformado pode parecer um caso anedótico. Mas multiplicada por centenas de situações semelhantes, torna-se um sinal poderoso: a generosidade vem com risco, a extração vem com garantias. Esse sinal infiltra-se nas conversas no café, nos jantares de família, nas reuniões da junta. Molda a forma como as pessoas ousam - ou não ousam - agir.

A vida rural já é frágil que chegue sem acrescentar este tipo de tensão absurda. Os reformados são, muitas vezes, o último elo da cadeia que mantém as paisagens vivas: mantêm sebes, emprestam anexos, partilham ferramentas, acolhem colmeias. Estes pequenos gestos silenciosos nunca aparecem em relatórios do governo nem nas contas do PIB. Apenas mantêm unido o que resta do nosso campo vivo.

Sejamos honestos: ninguém lê códigos fiscais antes de dizer sim a uma apicultora que bate à porta com um sorriso tímido e um fumigador na mão. As pessoas agem por instinto, pela memória de um tempo em que os vizinhos se ajudavam sem notas de rodapé legais. Se a lei pune esse instinto, o problema não é o instinto.

Talvez seja aí que a conversa precise de ir a seguir. Não apenas sobre isenções ou correções técnicas, mas sobre uma escolha política: tratar de forma diferente a terra que acolhe abelhas, sebes e flores, e a terra que as expulsa. Criar verdadeiros refúgios ecofiscais para cidadãos que cedem espaço à vida, e não apenas ao lucro.

Até essa mudança acontecer, cada nova colmeia colocada num terreno de um reformado é simultaneamente um ato de esperança e um pequeno ato de resistência. E cada envelope castanho que cai nessas caixas de correio pergunta-nos, muito baixinho: de que lado estamos, afinal?

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Clarificar a cedência do terreno Acordo escrito, gratuito, a especificar uso não comercial Reduz o risco de tributação inesperada e mal-entendidos
Enquadrar o mel como oferta Descrever como simbólico e ocasional, não como compensação regular Evita reclassificação como rendimento de arrendamento ou vantagem em espécie
Procurar aconselhamento e apoio locais Contactar finanças, organizações agrícolas, associações de apicultores e autarcas Acesso a soluções práticas, proteções e potenciais mudanças de política

FAQ:

  • Pergunta 1: Emprestar um pequeno pedaço de terreno a um apicultor pode mesmo ser tributado como rendimento?
  • Pergunta 2: Como posso provar que os frascos de mel que recebo são ofertas e não renda?
  • Pergunta 3: Existe um número “seguro” de colmeias para acolher sem ser tratado como atividade empresarial?
  • Pergunta 4: Quem posso contactar localmente se receber uma carta das Finanças sobre o terreno cedido?
  • Pergunta 5: Existem iniciativas políticas ou cidadãs para mudar estas regras injustas?

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